A prática de ingerir água quente ou morna ganhou enorme popularidade nas redes sociais recentemente com promessas de emagrecimento e desintoxicação. No entanto, médicos e especialistas alertam que a ciência por trás desses vídeos virais é mais sutil do que o esperado. Embora o hábito seja milenar em culturas orientais, os efeitos reais no corpo humano dependem de fatores biológicos específicos e não de milagres metabólicos.
Segundo a doutora Vanessa Buie, cirurgiã bariátrica da UChicago Medicine, a ideia de beber água quente tem raízes profundas na medicina tradicional chinesa. Nessas culturas, o calor é associado à melhoria do fluxo de energia e à digestão. Entretanto, sob a ótica da medicina ocidental, a temperatura do líquido não altera drasticamente a queima de gordura ou a velocidade do metabolismo de forma isolada.
O impacto real no sistema digestivo
Um dos pontos confirmados por especialistas é o auxílio na motilidade intestinal. O doutor Isaiah Schuster, do St. Francis Hospital & Heart Center, explica que fluidos quentes ajudam a relaxar os esfíncteres do trato gastrointestinal. Esse relaxamento facilita a passagem dos alimentos e pode estimular o reflexo gastrocólico, auxiliando pessoas que sofrem com constipação ou dificuldades de esvaziamento esofágico.
Mas é importante notar que esse efeito não é exclusivo da água pura. Qualquer líquido morno, como um chá ou até o café da manhã, pode gerar esse estímulo mecânico no sistema digestório. Pesquisas indicam que o corpo humano funciona de forma otimizada em sua temperatura interna padrão de 37 graus Celsius. Temperaturas extremas, sejam muito frias ou muito quentes, podem até atrasar temporariamente o esvaziamento gástrico.
Mitos sobre emagrecimento e detox
Sobre a perda de peso, a doutora Elizabeth Kazarian, especialista em medicina da obesidade, é categórica ao afirmar que não existem evidências científicas sólidas para recomendar água quente como tratamento. Beber água ajuda no emagrecimento quando substitui bebidas calóricas, mas a temperatura em si não derrete gordura. O foco na hidratação é o que realmente importa para o funcionamento dos órgãos e articulações.
A ideia de que a água quente promove um detox no organismo também carece de comprovação técnica. O fígado e os rins realizam a filtragem de toxinas independentemente da temperatura da água ingerida. A ciência atual mostra que o bem estar relatado por muitos usuários pode estar mais ligado ao efeito relaxante e psicológico de uma bebida quente do que a uma mudança fisiológica profunda.
Cuidados e recomendações finais
Apesar de não ser uma cura milagrosa, o hábito de beber água morna é considerado seguro e pode ser mantido por quem se sente bem com a prática. O maior benefício reside na manutenção da hidratação adequada, fundamental para todas as funções vitais. Se o ritual de beber algo quente pela manhã ajuda na sua disposição e humor, ele é válido como uma ferramenta de bem estar emocional.
Entretanto, é fundamental ter cuidado com a temperatura para evitar queimaduras na boca e no esôfago. Médicos recomendam que a água esteja em uma temperatura agradável ao toque. Se você busca perder peso ou melhorar a digestão de forma significativa, o ideal é focar na qualidade do sono e no controle do estresse. Esses fatores, segundo a UChicago Medicine, influenciam os hormônios digestivos muito mais do que a temperatura da sua bebida.
